25 de fev de 2019

Santaluz: Rejeitado pela mãe, jovem que morava em hospital ganha lar provisório

Redação Portal Cleriston Silva PCS

Após ser rejeitado pela mãe duas vezes – aos 6 e aos 18 anos –, passar a vida entre um orfanato católico e a rua e ter a lavanderia de um hospital público como morada, o jovem Alexsandro de Araújo Santos, 20, finalmente tem um lar.

A manhã dessa segunda-feira (25) foi a quarta vez que ele acordou em uma cama que pode chamar de sua, assim como uma cômoda, um ventilador, duas xícaras, uma garrafa térmica, uma mesa com duas cadeiras de plástico e algumas roupas.

A morada de Alexsandro é uma casa de três cômodos (sala, quarto e banheiro) alugada na quinta-feira (21) passada pela Prefeitura de Santaluz, cidade de 37 mil habitantes, localizada na região do Sisal.

Antes disso, ele dormia desde os 18 anos na sala da lavanderia do Hospital Municipal Petronilho Evangelista dos Santos que foi improvisada como quarto. A unidade de saúde era usada também para outras necessidades, como refeições e banho.

O tempo de permanência dele no hospital, contudo, é algo que a Prefeitura de Santaluz não assume – e até nega –, apesar de Alexsandro e de vários funcionários da própria unidade de saúde confirmarem o fato.

A gestão diz que já vinha tentando inserir Alexsandro no aluguel social, da Secretaria de Assistência Social, “porém, por causa de recusa do próprio Alexsandro, o processo ainda não avançou”, informava uma nota enviada na noite de quinta passada.

Quase ao mesmo tempo, Alexsandro deixava o hospital e ia para uma casa no centro da cidade passar a primeira noite. Na residência, apenas uma cama. Depois chegaram os outros móveis. Ainda não há geladeira e nem fogão na casa.

Monge franciscano - A formação católica que teve não exigiu que Alexsandro fizesse voto de pobreza, mas a realidade em que vive em Santa Luz assemelha-se a de um monge franciscano.

É uma situação inimaginável para quem conhece o jovem apenas pelas redes sociais, onde possui 2.358 seguidores no Instagram e 1.078 no Facebook. Os vídeos dele já tiveram até mais de 18 mil visualizações, o que o faz ser famoso em Santaluz.

A maioria das publicações são com amigos e conhecidos da cidade, onde ele é tido como “figura folclórica” e é muito querido por vários moradores, como fica evidente nas postagens, em algumas das quais gosta de brincar de repórter.

Numa delas, inclusive, mostrou as janelas do Conselho Tutelar tomadas por cupins. A publicação de 1,1 mil visualizações fez com que, logo depois, a Prefeitura de Santaluz trocasse as janelas por outras mais novas.

O vídeo visualizado mais de 18 mil vezes é um em que ele está na orla do Largo do Tanque Grande, nome do lago no Centro de Santaluz. “Como é bom ter férias, férias é sempre bom. Deus abençoe a vida de todo mundo”, são algumas das palavras dele.

Mas o sorriso largo que Alexsandro mostra nas redes sociais por muito tempo foi contido. A mãe, Ivonilda de Araújo Santos, era usuária de álcool e drogas e o rejeitou ainda criança. Simplesmente não quis criá-lo. Sobre o pai ele nunca ouviu falar.

Acolhido pela Associação São Lourenço, de assistência a crianças e adolescentes afastados do convívio familiar e gerida por missionários e freiras católicos, Alexsandro foi morar em Catu (Grande Salvador), onde fica uma das sedes da entidade.

Alcoolizada - Até os 11 anos, a mãe fazia visitas a Alexsandro na companhia de conselheiros tutelares e assistentes sociais, com quem sempre ia acompanhada. Mas como começou a aparecer sempre alcoolizada, a equipe achou melhor que ela não fosse mais.

Sem afeto de um familiar, Alexsandro teve nas freiras e missionários da Associação São Lourenço o espelho do que um dia poderia vir a ser. Contudo, perto de completar 18 anos teve de deixar o local.

“Me levaram até Santaluz e me deixaram na porta da casa da minha mãe e foram embora. Bati na porta, ela abriu, me olhou e disse que não me queria, mandou que fosse embora, então fiquei na rua”, contou o rapaz.

Alexsandro de Araújo Santos, 20 anos, morou em lavanderia de hospital

Na rua, fez de lar uma área nas imediações do Largo do Tanque Grande, onde passou a tomar banhos, o que gerou reclamações de moradores à Prefeitura local porque ele se banhava nu. Foi quando lhe deram abrigo no hospital, onde também fez amizades.

As redes sociais de Alexsandro, sobretudo o Facebook, são cheias de fotos dele na unidade de saúde, junto com médicos e outros funcionários, que até festa de aniversário já fizeram para o rapaz. Só não houve despedida na saída, devido à pressa.

Sobre a nova morada, Alexsandro pensa em conseguir auxílio dos amigos para que consiga ter mais móveis, ao menos os básicos, como um sofá, fogão, geladeira e mais cadeiras, já que só tem duas por enquanto.

“Desde que vim pra cá tenho recebido visitas de amigos, o que é uma novidade pra mim, pois antes era eu que ia à casa das pessoas, já que no hospital só pode entrar doentes ou acompanhantes”, disse.

Segundo Alexsandro, a Prefeitura de Santaluz se comprometeu a pagar as contas de água e luz da casa – o valor do aluguel ele não sabe quanto é. Mas nem tudo são flores ainda, sobretudo com relação à alimentação.

Alexsandro ainda não sabia o que teria ao meio-dia para almoçar no final de semana. As panquecas, pães, achocolatado e bolachas que ganhou de amigos deram somente para alimentá-lo entre a noite de sexta e a manhã de sábado (23).

Como faz todos os dias, Alexsandro, que nunca trabalhou na vida e possui como renda mensal R$ 85 do programa federal Bolsa Família, confia que alguém de bom coração o alimentará, mas nem sempre isso ocorre.

Nesta sexta-feira, por exemplo, o almoço dele foi um pastel e um suco, dado por uma amiga que se comoveu com o fato dele estar sem ter onde comer.

“Como eu já estou na casa, me disseram que eu não poderia mais comer no hospital. Hoje [sexta], na Assistência Social, me falaram pra eu ir almoçar no CAPS [Centro de Assistência Psicossocial], mas quando cheguei lá a porta estava fechada”, ele disse.

Perguntado se gostaria de trabalhar, Alexsandro disse que “gostaria de ser repórter, meu sonho é ser jornalista, aparecer na TV”, mas que “se aparecer outras oportunidades eu estou querendo”.

O rapaz disse que estudou até a 8ª série porque “sofria bullying na escola dos outros meninos porque eu morava no orfanato, ficavam dizendo que eu não tinha mãe, nem pai, isso me machucava muito, então deixei de ir”.

Alexsandro não bebe e nem usa drogas, o que foi confirmado por moradores e até pela Prefeitura da cidade. Seu passatempo preferido é ir à Igreja, seja na missa ou nos encontros de jovens. A rede social dele é recheada de fotos em eventos católicos.

Secretário de Administração de Santaluz, o ex-prefeito Joselito Carneiro de Araújo Júnior observou que Alexsandro “é uma pessoa que chegou a maioridade sem nenhum amparo social”.

Não ter amparo social é um problema que atinge mais de 100 mil pessoas que vivem na rua no Brasil, segundo uma pesquisa de 2015 (a mais atualizada) do Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea). Naquele ano, 47% da população de rua estimada estava no Cadastro Único.

“Ele virou uma figura folclórica na cidade, é muito educado e de muitos amigos, não mexe com ninguém, nem causa problema. As pessoas, sensibilizadas com ele, ajudam da forma como podem”, comentou Júnior.

O Ministério Público da Bahia (MP-BA) foi consultado sobre se acompanha a situação de Alexsandro, que relatou já ter tido reuniões no órgão, mas que a promotora com quem ele falou teria sido transferida.

O MP-BA, via assessoria de comunicação, informou que não tinha como dar informações porque a promotora que está atuando como substituta em Santaluz, Letícia Baird, titular em Serrinha, está de licença.

Segundo a Prefeitura de Santaluz, Alexsandro “é assistido por políticas públicas de assistência social e saúde, tais como Bolsa Família, proteção social básica, por meio do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas); e acompanhamento pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps)”.

“Destacamos que a Secretaria de Assistência Social de Santaluz desenvolve um conjunto de programas e projetos para que milhares de famílias de baixa renda não fiquem desamparadas, garantindo inclusive o direito de morar dignamente”, afirma. (Matéria publicada originalmente no site Correio24horas)

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